IMPERTINENTE DESEJO

Esta é uma fuga vã, adormeço em protesto, viajo para fora de mim e a cada regressar esbarro sempre no mesmo desejo,Tu me arrebatas, me desmonta por inteira, entrego-me à esta loucura minha.
Sabes bem que mesmo afogando em um mar de orgulho ainda sim me rendo a este prazer que ofereces-me.
D A R K ^.~

REVISANDO A VIDA AQUI, DESCOBRIR UM MONTE DE ANÉIS QUE JÁ NÃO ME CABE MAIS NOS DEDOS

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.

Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave 
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

(Carlos Drummond de Andrade)

D A R K